Amante Argentino

A palavra amante me traz uma certa nostalgia. Até vinte anos atrás esse jogo era bem feito entre homens casados e mulheres in(disponíveis). Atualmente o triângulo amoroso está fora de moda. Naquela época, ter uma dessasmaravilhas era fato corriqueiro entre os presidentes, os artistas e tantosoutros homens respeitados da sociedade como um todo.
O amante era na maioria das vezes um cidadão abastado que estava semprepronto para presentear a outra com belas jóias, bons perfumes e até mesmo belos casarões. Era um cidadão que andava bem vestido, sempre pronto para mandar flores, para passar as noites fora de casa e inventar mil desculpas para a mulher, que fazia de conta que acreditava em tudo que o maridão falasse. Mas existiam também os Cartolas que chegavam tarde a casa, cantarolando: "as rosas não falam, simplesmente, as rosas exalam perfumes que roubam de ti".
Hoje, sim, Amélia é uma mulher de verdade, uma mulher que vai à luta, que não aceita mais aquele tipo de comportamento, que nos olha de igual para igual, que trabalha e que tem voz ativa dentro da sociedade. Por outro lado, os amantes, antes afortunados, estão falidos. Quem não se lembra das andanças do nosso ilustre presidente?

Os banquetes foram substituídos por pizzas; os suntuosos palácios, por apartamentos simples das periferias; as mulheres exuberantes e apaixonadas, por secretárias do baixo escalão governamental.
O amante já não empolga mais ninguém, a mulher já não se submete mais a esse capricho do sexo masculino. Ela não se aceita como a "outra" - essa é página virada. Hoje, nenhum marido que se preze consegue prender sua companheira dentro de sua própria casa sob qualquer pretexto. A mulher descobriu que o casamento tem que ser mútuo e não só dela (ou dele!). Bem que Vinícius de Morais já havia alertado os homens: "que o amor seja eterno enquanto dure". Saiu disso, acabou, está acabado!

Além dessas mudanças todas, a mulher descobriu que pode ser (in)dependente, que não precisa de um homem ao seu lado durante as vinte e quatro horas do dia, que pode até - enorme e antigo monstro - criar os seus próprios filhos como bem entender.
Penso e sinto que o triângulo amoroso já não faz mais parte da matemática feminina. Hoje o que prevalece são os ângulos opostos e de mesmo grau. A nós, homens, resta agora, ter a coragem de reconhecer as nossas fragilidades e compartilhar fortalezas, amantes (quem tiver juízo) da nova ordem social.

 
  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

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