Caçador de talento

 
As atitudes das pessoas são engraçadas. Não dá para acreditar em nada do que se vê. Principalmente quando se olha com bons olhos e não está com o espírito preparado para o pior, aí, é um desatino. Um dia desses, passando pela praia, como quem não procura nada, percebi que um cidadão (com uma bela filmadora nas mãos) todo garboso dizia para um garoto:

__Vai... entra.

O garoto com uma prancha de surf Funboard - a preferida dos iniciantes - e ntre os braços, parecia trêmulo de frio. Colocou um dos pés na água para sentir a temperatura. Voltou correndo. E, outra vez o cidadão gritou:

__ Vai... entra. Vou filmar você. Quero ver como você está melhorando.

O garoto, coitado, pulou na água feito peixe sem oxigênio. Nadava de um lado para outro sempre olhando para o charmoso cidadão. Depois de beber alguns mililitros de água salgada o garoto saiu com um sorriso discreto.

__ E aí, meu pai? Como estou?
__ Você vai ser um belo campeão! Filmei tudo.

Alguns dias depois, passando pela mesma praia vi o tal garoto jogando bola.
Nada de prancha e muito menos de filmadora. Achei tudo muito estranho.
Resolvi esperar a partida terminar para saber do garoto o que havia acontecido e onde andava o seu "técnico". Só que nesse meio tempo, apareceu outro cidadão e eu fiquei a observar.

__ E aí campeão, esqueceu a prancha em casa?
__ Que prancha?
__ Na semana que passou vi você treinando com seu pai e ouvi quando ele disse que você ia ser um grande campeão.
__ Foi apenas uma brincadeira.
__ Mas ele não estava filmando suas descidas e subidas nas ondas?
__ Estava. Estava a caça de talentos.
__ Ah, então ele tinha que falar era comigo.
__ De bundão ele está cheio.
__ E por que ele usava uma filmadora?
__Era para enganar os trouxas como você, ele fazia de conta que era caçador
de talentos e, eu, fazia de conta que era surfista.

  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

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