A justiça é mesmo cega

Hoje não sei o que escrever, mas não vou perder esse costume tão difícil e agradável ao mesmo tempo.
O engraçado é que nem sei quantas pessoas vão ler o texto e também ainda não imagino qual será o final; a vida tem passado tão depressa que já estou preocupado com o desfecho.
Relendo esse primeiro parágrafo, que parece sem pé cabeça, lembrei de Josef Kafka, em O Processo.
Não que a obra não tenha sentido, a audácia está em eu lembrar do livro. Isso, sim, é que me parece não ter pé nem cabeça.
Lembrei de alguns anos atrás, quando um certo cidadão comprou um jeep de um dos seus vizinhos de porta. Eram dois amigos que estavam sempre juntos, e, até então, jamais houvera qualquer discórdia entre ambos.

É importante frisar que o jeep era usado, mas aparentava boas condições de uso e um ótimo estado de conservação. O negócio foi fechado sem a necessidade de testemunhas, mesmo porque eles eram amigos de remotas datas. Só que o jeep, teimoso, resolveu quebrar o motor logo nos primeiros dias após a venda. O comprador, indignado, achou que havia sido enganado, pois pensava ser impossível uma avaria em tão pouco tempo. O vendedor, por seu lado, alegava que o comprador examinara o veículo de cabo a rabo antes de concretizar o negócio e que ele não sabia dirigir como manda o "figurino" a um bom motorista.

Os moradores da rua tomaram partido, cada qual dava a sua versão da história. Chegaram a fazer várias tentativas junto aos implicados para ver se encontravam alguma solução que satisfizesse a um e outro.

Nada dava certo, cada um tirava a sua própria conclusão para o acontecido. Cada qual defendia a sua verdade como sendo a única. Todas as tentativas de mediação foram descartadas, tanto pelo vendedor quanto pelo inconformado comprador. Passados alguns dias, sem nenhuma novidade que pudesse acalmar os ânimos de lado ou do outro, resolveram que seria de bom tamanho contratar um advogado que pudesse, segundo eles, resolver o problema de uma vez por todas. Assim foi feito.
O advogado escolhido, de comum acordo, mesmo porque era o único da cidade, logo se prontificou a resolver o problema. Garantiu aos envolvidos que muito em breve resolveria a questão, que estudaria com carinho o caso e tão logo fosse possível, notificaria os dois.

Os honorários foram acertados em vinte por cento do valor do veículo, ou seja, a partir daquele momento o advogado passou a ter uma fração líquida e certa do objeto em questão.
Os vizinhos, inconformados com a contratação do advogado, que agora era também dono de uma parte do veículo, já que os "réus" não tinham como pagar os serviços, a não ser desta forma, começaram a pressioná-lo, justo ele, que mal havia começado a estudar o caso.
O advogado, por sua vez, alegava que precisava de mais tempo para examinar a situação, dizia que não queria tomar uma decisão precipitada, pois se isso ocorresse, alguém poderia ser prejudicado.
Assim, o advogado ganhou mais uma semana, saiu de casa em casa fazendo perguntas para poder, de uma vez por todas, concluir o caso, que já estava sendo comentado por toda a cidade.
A primeira casa que ele entrou foi a do padre, um jovem que acabara de chegar na comunidade. Esse por sua vez, pediu que esperasse até o domingo para dar a sua opinião. Queria ouvir o que os seus fieis achavam do caso, alegou que uma decisão como aquela não poderia ser tomada às pressas.

O coroinha deu logo a sua opinião: "tem que ser devolvido". Ambos, o padre e o advogado olharam feio para o pobre coroinha, afinal, não haviam lhe
perguntado nada.
No dia seguinte, entrou na casa de um açougueiro que estava amolando uma faca. Perguntado sobre a questão respondeu: "se fosse um boi eu saberia como fazer, mas como é um automóvel, não sei como resolver o problema".

Assim ele foi andando, até que entrou na casa de um cego.

__ Já sei, tragam o vendedor e o comprador até a minha casa! Disse o cego.

No dia seguinte lá estavam os dois. O cego pediu que os colocassem frente a frente e sem dizer uma única palavra, ficou andando de um lado para outro, enquanto os dois trocavam olhares. Depois de muita espera, dado o tempo necessário para se acalmarem os ânimos e repesar valores, o comprador, com um sorriso desenhado levemente no rosto, resolveu que ficaria com o carro.
Todos ficaram espantados, mas o cego, rindo-se por dentro de compreensão e cumplicidade, explicou o que acabara de acontecer:

__ A justiça é cega como eu, mas o bom senso tem que prevalecer sobre
qualquer lei, mesmo porque não há códigos que determinem a priorização do
que realmente importa.

  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

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