SER OU TER, O QUE?

Engraçado, hoje passei o dia todo folheando um dicionário, parecia que não tinha o que fazer. Na verdade não sabia o que estava realmente procurando, pois passava folha por folha sem muita convicção. Assim, nenhuma palavra trazia, em sua grafia, um significado concreto para os meus olhos; tudo me parecia abstrato e irreal.

O telefone, enfurecido, tocava sem parar. Como tinha certeza que não era para mim, nem dava ouvido. Ainda olhei em volta e constatei que, realmente, eu estava sozinho na sala e, mesmo que o chamado fosse para mim, não estava disposto a atender quem quer que fosse. Queria que o mundo desabasse lá fora. Quando já estava lá para o final do meu "quebra-cabeça", a palavra SER me chamou a atenção. Só que, ao invés de ler normalmente, li de trás para frente. Fiquei ali imaginando como eu seria se fosse um boi, ou quem sabe uma vaca malhada de nome Mimosa. Naquele momento lembrei de uma frase que havia lido não sei onde que dizia: "jogue o homem e o boi na parede, o que berrar primeiro é o homem".

Tratei logo de mudar de página (para a minha infelicidade ou felicidade, ainda não estou bem certo do final da minha história), encontrei a palavra TER, que quase me passou despercebida. Ante esses dois vocábulos tão pequenos, estranhamente, me flagrei fazendo uma pergunta a mim mesmo: Ser ou Ter, o quê? De "posse" dessas duas verdades, imaginei logo que poderia vir a Ser um grande poeta. Como sou ambicioso, o primeiro nome que me veio à cabeça, não podia deixar de ser o de Luís Vaz de Camões. Pouco depois de me ver declamando os Lusíadas do alto da minha vã incompetência, percebi que declamar Camões é quase um ato de bravura, para não dizer, de infinita coragem para ousar tanto.

Além do mais, e sendo coerente com a reflexão sobre as descobertas léxicas, mesmo que se tenham os versos à mão e na ponta da língua, para ser alguém como o Poeta é preciso um esforço bestial. Não basta Ter a poesia dele, Ser o Poeta é que são elas. Como não sou persistente (afinal mereço um desconto pelo tamanho da pretensão poética), logo joguei as falas de Camões para o lado, concluindo, persuadido, que é mais fácil ter um carro novo, uma outra casa e, com um pouco de sorte, também, uma mulher bonita e carinhosa.

Contabilizei meus haveres: mulher bonita, já tenho, casa nova também, carro do ano posso ter, basta que eu vá a uma concessionária e faça uma compra para pagar em sessenta "suaves prestações". Pensando em isso tudo, fui dormir. Quando acordei, na minha cabeça ainda estava guardada a mesma pergunta... Ser ou Ter, o quê? Todas as poesias de Camões, todos os livros que foram publicados com suas obras não vão fazer de mim um poeta.

Ser é infinitamente maior do que Ter, embora os dois vocábulos tenham o mesmo número de letras e fiquem bem próximos um do outro no dicionário. Os milhares de pessoas e também eu, que compramos tantas obras não ganhamos por isso, a prerrogativa de sermos ETERNOS. Camões escreveu "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e, pensando bem, desde lá ele já tinha razão: para que sejamos eternos, é preciso que conjuguemos o verbo Ser em todas as suas dimensões na transformação e aperfeiçoamento do que vão de atos a sonhos e é preciso estar bem certo que não precisarmos Ter mais do que o que nos cabe enquanto pessoas

  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

  ©Sonho DigitalBR Todos os direitos reservados