UM DIA DE BOI

 

Às vezes penso na morte como quem pensa na vida, mas a morte nunca me fez mal e nem tão pouco o viver me faz bem. Sempre quis ser o melhor, o mais correto, o mais lúdico e, tudo isso juntado em um mesmo saco, talvez um saco bem grande como é o do elefante, pudesse discernir o que sinto do que penso. Nessas tentativas sempre saí perdendo, não encontrei quem pudesse dizer que eu estivesse de todo ou em parte errado. Sempre me senti como um boi bravo, abatido no tronco, esperando a faca no peito.

Todas as vezes que vejo alguém se debatendo feito um boi-na-vara, fico aflito, porque o meu berro, mesmo que alto, não faz eco. Tenho a consciência de que jamais serei um boi de peso dentro desta sociedade, como também tenho a certeza que os meus escritos jamais terão as minhas idéias coordenadas.

Penso que tanto a pedra, como o fogo e o homem são, na sua essência, um amontoado de coisas, como um estrume podre. Não é porque penso que me sinto superior, tampouco inferior. Na maioria das vezes o vira-lata do meu vizinho é bem mais importante do que eu, até porque ele raramente "fala". Por outro lado, o meu cachorro sempre me olhou como um amigo e nunca como o seu verdadeiro dono, talvez por isso, seja bem mais feliz do que eu.

Uma boa parte dos homens nos olham com ar de superioridade e grandeza, principalmente aqueles que pensam que são infinitamente superiores. Pena, porque, esses, ainda não entenderam o real significado da vida e muito menos da morte. Quando morto estiver, a sete palmos da flor da terra, mesmo com todos os dentes revestidos em ouro, o meu cachorro, se vivo estiver, valerá bem mais do que eu e de todos esses que se julgam entes imortais.

Não consigo me ver como uma única pessoa. É verdade que me visto como um homem, mas nem por isso, o meu cachorro, me reconhece como tal. Para ele, guardo várias personalidades em um mesmo corpo. Ele sabe perfeitamente quando estou em conflito comigo mesmo, ele separa com exatidão as várias pessoas que sou. Nesta luta entre as minhas infinitas personalidades ou pessoas, pareço um palhaço, não encontro respostas para as minhas perguntas que hoje são as minhas respostas de quando era criança. Como você pode ver, sou um Ser insatisfeito, um boi magro e doente. Às vezes penso em sair de mim e bloquear todos os meus sentimentos. A sensação que tenho é a de que, se me libertar dos compromissos com a sociedade, vou me libertar deste boi perrengue que existe em mim.

  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

  ©Sonho DigitalBR Todos os direitos reservados